Um conto que escrevi ano passado.

Era Alva, mas em contradição a cor da sua pele era mais retinta que o negro céu estrelado das noites solitárias que ela conhecia bem. Suas dores eram pouco compartilhadas com um mameluco tenaz que mais sabia causar-lhe prazer furtivo e dores de cabeça, mas Alva, dona de uma incerteza tão grande sobre seu futuro não escapava de seus encantos e sua lábia.

Com seus 40 e poucos anos, andar malemolente, que jogava os quadris pra lá e pra cá, ela ouriçava a muitos mas não se dava conta da beleza de seu gingado. Achava suas pernas tortas, cheias de marcas da infância, machucados tecidos nas ruas sem asfalto enquanto jogava bola com os moqueles da comunidade. Suas mãos eram ásperas, de tanto esfregar chão, lavar panela, enxugar prato. Tarefas diárias que fazia ora dentro do barraco, ora na casa das madames que descolava uns bicos de doméstica. Seu cabelo era todo vistoso, com cachos que fazia questão de deixar com um cheiro particularmente seu, dos seus cremes, seus perfumes, seus cuidados. Tinha beleza essa mulher! Ela apenas não se dava conta disso.

E conforme ia se envolvendo com um crápula aqui e outro ali, sem deixar se amarrar em coração de vagabundo nenhum e de tanto que suas pernas cruzavam com as de seu companheiro mameluco, subia um calafrio pela espinha só de imaginar que pudesse ficar grávida e acabar com tudo. Toda vez era uma preocupação na hora de fazer o cara gozar, porque ela tinha que fugir dali – de um jeito ou de outro – antes que fosse tarde demais. Nem sempre dava certo e lá tinha que se virar pra comprar uma pílula do dia seguinte e a história sempre acabava na mesma: ganhava aqueles xingamentos durante as conversas que se sucediam dali pra frente, mas achava que o problema era que ela não sabia se dar ao respeito de alguma forma ou que não sabia mostrar pros caras o valor que ela tinha – Será que ela tinha algum valor? – chegava a se questionar.

Geralmente esse mameluco marcava de encontrar com ela depois de já ter ido ao bar quando já tinha bebido todas com os amigos, só pra no final lembrar que ela existia e que se interessava em dar umas porradas nela e em fazer um sexo não muito bem consentido porque ele achava que isso era demonstração de dominação. Pondo dessa forma, como quem vê de fora parece que é aquela história daquele seu vizinho, mas na cabeça dele ele só queria transar e botar a raiva pra fora. Descontar em alguém as frustrações do dia a dia, e ela era a vítima escolhida. Como se via presa á essa realidade e sem opções menos piores, Alva aceitava o que o destino lhe reservava e encarava essa constante humilhação, até que numa dessas noites, quando o mameluco chegou já meio tropeçando pelos próprios pés, chamando ela de puta e abrindo a braguilha da calça, Alva juntou todas suas forças e pensou que se um dia fosse pra ela morrer que fosse naquele dia, já que ela não aguentava mais esperar por um futuro que nunca chegava, nunca melhorava e que nesse presente de xingamentos e porradas ela não queria mais viver.

Levou uns tapas fortes na cara, foi empurrada, bateu com a cabeça na parede, ficou machucada, foi forçada a fazer sexo da maneira que não queria com ele sem o menor carinho, sendo apertada pelo braço, sem a menor cumplicidade e nem sintonia que pudesse existir num amor de verdade – como almejava. E quando todo aquele cenário de desgraça acabou e o homem se deu por vencido e deitou de lado e dormiu, ela resolveu que era hora dela começar a se vingar.

Pegou o galão de gasolina que tinha deixado preparado embaixo da pia, junto aos baldes de lavar roupa, e tacou em cima do infeliz que tomou um susto mas não foi capaz de se livrar o isqueiro aceso por Alva.

Uma chama de gente viva, um cheiro de carne podre e gritos começaram a se dissipar por todo o barraco, Alva abriu a porta e começou a gritar “Isso é pra você aprender a nunca mais bater em mulher! A nunca mais me desrespeitar! Seu filho da puta!”

O mameluco se debatia pra todos os lados tentando apagar o fogo que consumia o seu corpo… em vão. Os vizinhos assustados começaram a aparecer por perto pra ver o que estava acontecendo mas não sabiam ao certo o que fazer. Só olhavam a chama iluminar o lugar e o fogo arder.

Até que chamaram a polícia.

Quando a polícia chegou, o homem já estava morto e o fogo ocupava metade do barraco. Alva estava em estado de choque, ria compulsivamente, coçava a cabeça, andava de um lado para o outro e não falava nada com nada. Estava toda machucada fedia, suas roupas eram sujas e maltrapilhas mas apesar de seu estado, ela tinha também cometido um crime.

Os policiais tiveram trabalho em tentar prende-la e encaminha-la para a delegacia, e ao mesmo tempo tentavam chamar o corpo de bombeiros e levar tanto Alva ao IML quanto chamar a perícia pro local do crime.

Era uma puta confusão.

Naquela noite, a favela não dormia mais uma vez. Mais uma mulher se libertava da violência doméstica mas, pra isso, tinha cometido uma loucura. Era dar a vida pra conquistar a sua própria sabe-se lá como.

Chegando na prisão, no meio de todas aquelas mulheres, corredores imundos e seres humanos entregues á traças, perdidos no tempo e esquecidos ao léu como um relógio quebrado que parou de funcionar e ninguém mais deu corda… estavam todas ali abandonadas á própria sorte, algumas sendo visitadas por parentes, outras nem isso, dependendo de fazer chantagens em cima de esquemas tortos arranjados dentro da prisão como contrabandos de cigarros, drogas e celulares.

Mas naquele primeiro dia mal conseguiu dormir, estava tão transtornada e foi logo sendo ameaçada por outras mulheres que teve que ficar em pé a noite inteira e procurou não falar com ninguém. Teve medo. E queria sair dali o mais rápido possível mas sabia que não tinha como. Não tinha quem a defendesse, não tinha parentes, não tinha amigos, e tinha feito algo muito errado.

O jeito foi contar os dias. Esperar a cólera passar, o sentimentos acalmarem e tentar dar um jeito de comer alguma coisa diferente do que tinha sendo servido na hora do almoço. Na hora do aperto a simpatia fala mais alto.

E nessas ela se aproximou de uma morena, que estava envolvida com os baseados que rolavam no raio 7, ela só queria ter alguém pra trocar ideia e garantir um rango diferente no final do dia, mas achou interessante dar uns tapas no tal do baseado também pra fazer a cabeça e ver o tempo passar ali dentro daquela prisão.

E de baseado em baseado, vendendo aqui, passando de mão ali na bituca caindo pelos chãos escondidas em baixo dos colchões que ela se deparou com um olhar flechado vindo da direção oposta chamada Maria com seus 25, 27 anos por aí, bem mais nova que ela mas com uma malícia descomunal que a atraía pras suas pernas, braços e bocas. Não conseguia tirar seu pensamento dela um minuto. Da sua pele clara, seus cabelos lisos, lânguida que só ela, que vinha se derretendo pedindo mais um na conta e ela não podia fazer nada.

Dizia que se ela vendesse mais 2 baseados pra ela, ela podia pegar o dela de graça, mas fazia isso pra agradar, por que sabia que o agradecimento vinha acompanhado de um beijo, talvez até mais do que isso… uma mão na coxa que passava por dentro da calcinha e chegava a dar o tesão que ela tanto queria.

Essa brincadeira ia e vinha de raio em raio, acontecendo todos os dias e Alva adorava a sensação de poder que tinha e de poder fuder sua puta nesse jogo de interesses que acabava com uma chupada gostosa na sua buceta e mãos nos seus peitos, escondida atrás de fugãozinho da cozinha enquanto as guardas faziam vista dura, tudo tinha que ser bem rápido pra não dar na vista mas era exatamente isso que deixava mais excitante.

A menina ia gostando disso mas tava sentindo que precisava rodar na mão de outras minas também, afinal não dava pra ficar sendo a cadela só de uma por conta de dois baseados. Ela tinha ambição e não faltava vontade, nem desespero pra fumar mais baseado. Ou até quem sabe cheirar uns pó. O clima de auto destruição era forte e ela tava ali pra isso. Já pouco importava quanto tempo faltava pra sair… ela já estava embebida pelo sistema da cadeia, no dia a dia sistemático de dar e conseguir as coisas e não via como sair daquilo ali.

Quando foi no dia seguinte Maria chegou na morena e pediu pra pendurar mais alguns baseados e uns pó na conta dela. Disse que depois pagava, do jeito que ela queria. A morena se excitou e cagou se Alva ia ficar sabendo ou se ia gostar ou não, tratou de combinar o local – na cela dela mesmo, que rolava um esquema pra Alva não ver – e arrumou os baseados e os pó pra ela.

A Alva já tinha dito que não era pra Maria entrar nessa de cheirar, mas a menina não deu ouvido…. Maria chegou e começou a andar pelos raios que nem uma louca tagarela, falando com todo mundo, bicudona, mas não tava mas nem aí pra falar com a Alva que nessa hora já estava muito puta com ela porque já tinha sacado toda cena.

Não sabia onde ela tinha arrumado o pó mas sabia que ela tava louca do cu e foi logo pegando ela pelo braço e chamando ela pelo canto “Sua vagabunda, não te falei que não era pra tu usar pó? Tá fazendo o que cheirando essa merda? Arrumou onde essa porra? Tá maluca garota?” Mas Maria só dava risada, não respondia nada com nada, soltou seu braço da mão pesada dela e saiu andando sem dar explicação nenhuma.

Alva ficou na ira, ficou muito puta, e já começou a falar com uma e outra pra descobrir quem tinha dado o pó pra ela, foi quando a anã da cela do lado resolveu abrir o bico e falar que tinha visto as duas indo pra cela da Morena e que provalvemente era a hora do pagamento.

As duas estavam sem blusa, com as calças abaixadas, se pegando, na cama quando Alva apareceu com uma faca na mão pronta pra cobrar a palhaçada que tava acontecendo pelas costas dela. Mas nisso, uma guarda já intercedeu seus planos e não deixou ela entrar na cela que rolava a pegação da Maria com a Morena. As duas estavam lá… uma enfiando o dedo na outra, chamando de meu amor e foda-se a Alva. Enquanto isso Alva ouvia tudo do lado de fora, e ainda tomava um esporro por estar com uma faca na mão e perdia alguns dias de jumbo. Com sorte ela não foi parar na solitária.

Nessa hora a gozada já tinha selado o destino: Maria e Morena eram o novo casal da prisão. E andavam pra cima e pra baixo passando baseado pras outras e alguns pó deixando o ritmo do lugar mais ameno. Alva ficou cada vez mais presa dentro de si, na raiva e sozinha, passou a enxergar que só tinha alguns baseados pra vender e usar e que tinha perdido a oportunidade de se apaixonar pela primeira vez por alguém mesmo depois de ter sido maltratada, isso tudo por uma falsa impressão de poder.

 

Maíra Brito.

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