Outro conto… do ano passado.

Uma menina que não encontrava prazer nem satisfação em nada que fazia… já tinha tentado começar Administração, Direito, Gastronomia e Turismo. Não tinha se encontrado em nenhum dos cursos mas carregava consigo um sentimento de cobrança de que tinha que se formar em alguma coisa pra ser alguém. Pra conquistar um lugar no mercado de trabalho e dar orgulho aos seus pais.

Se matava de estudar, a cada empreitada, a cada início de semestre era a mesma coisa: montava uma planilha com o cronograma de estudos, as datas de prova, a rotina que ia ter, se planejava pra arrumar um estágio, estava sempre disposta e ansiosa pra engrenar na nova profissão mas logo no primeiro dia de aula em 5 minutos de lousa escrita ela se perguntava “Mas que raios eu estou fazendo aqui?”.

Ela não gostava do lugar, da matéria, dos professores, das pessoas, de nada! Odiava a faculdade. Ela não sabia mesmo do que gostava. Ela preferia estar mil vezes em casa, sem fazer nada. Ou num parque, correndo. Ou brincando com seu cachorro. Mas tinha que fazer alguma coisa.

E insistia, e voltava todos os dias pra mesma aula chata. Seja do curso que fosse. Ia, entrava e saía. Não fazia questão de nada. Só queria cumprir tabela. E acabar com aquela tarefa interminável.

No mais profundo silêncio ela sentia vontade de morrer. Era um vazio, uma dor que sentia no peito de não conseguir se entender e brigar consigo mesmo por tudo isso, que fazia ela ter vontade de explodir e sumir do mapa mas ela encontrava conforto e a saída na fútil e frívola válvula de escape do dinheiro, das coisas materiais que ele podia oferecer mesmo sabendo que ele não trazia felicidade.

Seus sonhos eram maiores do que seu próprio status financeiro podia lhe dar e ela era profundamente infeliz por isso e estava querendo sempre mais, e almejando coisas e situações e experiências que não podia ter e não podia viver querendo sempre além e com isso ela se frustrava e se sentia triste querendo viver uma realidade que não era sua e talvez por isso ela nunca estivesse satisfeita com nada. Porque estava sempre presa em ilusões, como diriam os budistas em suas escrituras.

Se ela optasse por um caminho mais humilde, e se tornasse mais tolerante, e olhasse pro que tinha com mais amor, e se desse por satisfeita e acreditasse que não precisasse de muito assim pra viver ela talvez conseguisse achar um pouco mais de paz e tirar todo aquele peso de suas costas e quem sabe encontrar um pouco mais de paz. Mas não adiantava, ela queria sempre mais.

Mas nesses dias ela passou por uma vitrine na rua mais cara da cidade e foi tratada com certa indiferença e não ficou se sentindo muito bem com isso, pra meio que dar um troco na pessoa que fazia muito sentido na cabeça dela e a pessoa ia reparar nela como uma pessoa superior, ela resolveu entrar na loja e gastar mais de 1/3 do que ela tinha na conta dela com aquela loja de sapatos.

Entrou na loja, olhou todos aqueles sapatos dispostos pelas prateleiras, enfileirados, pretos, de oncinha, de camurça, com tachas, de salto, tênis, Anabela, em fim… um mais lindo que o outro. A vendedora se aproximou e perguntou se podia ajudar. Ela escolheu logo três de cara, e falou “meu tamanho é 39, você pode trazer esses pra mim pra eu experimentar?” “Claro! Já vou ver se tem seu número e já volto”.

O cara que tratou ela mal entrou na loja a fim de ver o que acontecia naquele empreendimento, não entendia tanto motivo de confusão e exibicionismo.

Ela, entorpecida pela vaidade não dava mais conta de nada. Só queria saber de mostrar pro cara que ela podia comprar ali e que ele a havia julgado errado. Pobre moça. Deixando sua aparência ser levada a sério por uma pessoa que mal a conhecia, pior! Nunca a tinha visto antes!

Ela escolheu o par de sapatos mais caro apesar de não ter gostado tanto deles mas sabia que se fosse pra mostrar que podia gastar naquela loja tinha que levar os sapatos mais caros. Ao se aproximar do balcão o cara se aproximou e perguntou dela “Você realmente vai levar estes? Eu vi você experimentando alguns sapatos e você ficou maravilhosa com o preto”.

Ela estranhou a simpatia e achou que seu plano tinha dado certo. E disse: “É. Vou levar esses aqui mesmo. Foi o que mais gostei. E eles são os mais caros.” O cara voltou pra ela e disse “Entendi. Bem, acho que você tem o estilo de uma loja que está contratando vendedoras aqui na região. Toma o meu cartão. Me procura que eu te indico pra trabalhar lá.”

Ela nem imaginava o que estaria por começar ali.

Se despediu e foi embora. Certa de que tinha feito “um bom negócio”.

Dali a alguns dias ela resolveu ligar pro número que estava no cartão e pra sua surpresa o mesmo cara atendeu prontamente e sem rodeios foi logo perguntando “Você faz ficha rosa?”. Ela sem entender muito bem do que aquilo se tratava disse não ter entendido a pergunta. Ele foi mais direto “Você faz programa?” Ela ficou meio ofendida no começo com a pergunta mas perguntou “Como que é isso? Como funciona?” “Ah eu tenho um conhecido que tá procurando uma menina pra sair e ele quer pagar bem e eu pensei em indicar você… te vi naquele dia na loja e você tem bom gosto pra se vestir, sabe escolher muito bem um sapato…. é bonita… pensei que você topasse.”

Ela ficou meio na dúvida na hora mas como a oferta parecia boa demais pra ser verdade resolveu perguntar mais “E quanto ele quer pagar?” O cara falou “Olha, 400 reais a hora. Tá bom pra você?” Ela falou “E o que eu tenho que fazer?” “Ah .. sair com o cara… né? Você sabe…”

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s