Porque não devemos buscar a vingança.

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Sabe, eu estava relembrando do meu passado agora a pouco e mexi numa parte dele que sempre me faz chorar…. eu estudava num colégio em Copacabana no Rio de Janeiro que eu gostava muito e tinha minhas amizades todas já estabelecidas por lá… eu, poderia se dizer, era bem popular nesse colégio mas sem pertencer ao grupo das meninas mais bonitas ou ditas “patricinhas”, até porque todos éramos muito crianças pra nos rotular dessa forma já…. mas eu era a menina levada, que corria o recreio inteiro, aprontava, brincava com os garotos e até os enfrentava junto com uma colega inseparável, e nos divertíamos muito. Eu era bem feliz nesse colégio.

Mas minha mãe trabalhava em outro bairro, em Ipanema, e meu pai não queria mais me levar pro colégio… ele na realidade estava infeliz de morar no Rio de Janeiro e não tinha como voltar pra Manaus e fazia de tudo pra ser meio …. em fim. Nisso minha mãe resolveu me matricular em outra escola, ao lado do trabalho dela, pra ela poder me levar e me pegar do colégio …. Acontece que quando eu me mudei pra esse colégio eu não me adaptei nadinha ao novo colégio.

Não fiz amigos, ninguém gostava de mim, as pessoas me zoavam porque eu tinha nascido em Fortaleza e me chamavam de faxineira ou paraíba, e faziam os bullyings mais bizarros comigo e eu sempre voltava pra casa chorando. Ninguém falava comigo, e quem falava falava por pena.

Isso era 4º série… essas meninas do colégio já eram patricinhas, já beijavam na boca…. eu vinha de um colégio que a gente se dava tapa no recreio, brincava de bola…. não tinha nada a ver com a cultura desse colégio. Eu odiei esse colégio desde o primeiro dia.

Mas eu tentava ali, me encaixar no padrão das meninas pra poder pertencer aquele grupo, mas quanto mais eu tentava pertencer menos eu conseguia, não era eu…. e elas mais sacaneavam.

Bom, não preciso nem dizer que garoto nenhum olhava pra mim né. Isso já fica implícito. Mas eu realmente não me importava com garoto nenhum, eu acho que eu era bem do tipo “Garotos, eca!”

E só quando eu estava na 8º série eu fiz amizade com uma menina repetente chamada C. e ela tinha um estilo de blusas de flanela e calças jeans rasgadas, um all star… e curtia umas blusas de banda de rock. Curtia ouvir Nirvana e Pearl Jam e as ideias dela era meio que “Foda-se o mundo, foda-se os outros e o que eles vão achar de mim”.

Eu comecei a fazer amizade com essa menina e virar amiga dela até que um belo dia eu resolvi me libertar daquele padrãozinho que eu tentava me encaixar sem sucesso e falar “foda-se” também. Eu resolvi assumir que era diferente – não sabia exatamente como nem porquê era diferente, mas era – e que dali em diante eu iria usar umas calças rasgadas, rabiscadas, umas correntes, umas blusas flaneladas, e me vestir de um jeito diferente que pra mim aquilo significava expressar que eu era diferente de todos aqueles que eu não conseguia nem rolava de me encaixar no padrão – E eu já vinha tentando isso a anos.

E nisso eu comecei a fazer novas amizades, com o pessoal mais velho do 2º ano… uma galera que tinha alguns que eram mais grunges, outros mais metaleiros… e eu fui tateando nessas tribos ora sendo grunge, daqui a pouco eu era metaleira, até que a gente começou a ir escondido pro Heavy Duty – um bar de metal numa zona bizarra do RJ – escondidos de nossos pais.

E pra mim, nessa época eu nem bebia nem usava drogas e eu só queria estar em um lugar descolado, alternativo, que tocasse rock e fazer uma pose de mal com meus amigos e ter um bom momento…. e não via nada de ruim nisso.

Só que numa dessas vezes minha mãe descobriu que a gente foi pra lá e foi atrás da gente junto com a mãe do meu namorado da época e buscou a gente no meio do role. Levou eu, meu namorado e acho que o irmão do meu namorado embora do role…. um lance desses. Mas eu e o namorado fomos embora… isso eu lembro muito bem.

A galera ficou em choque, ria da gente…. zuava a gente… e agente tomando um puta esporro na frente de geral…

E pra piorar a situação minha mãe ligou pra todos os pais dos meus amigos que estavam e não estavam no role e contou que a gente ia escondido pra esse tal Heavy Duty.

Consequência: Eu, que não tinha amigos da 4º até a 8º série, na 8º série voltei a não ter mais amigos nenhum.

Todo esse pessoal parou de falar comigo, começou a virar a cara pra mim, me tratar mal, falar coisas do tipo “sai daqui! você é chave de cadeia! vai embora!” e coisas assim… e eu fui ficando mal fui ficando mal…. e foi quando eu resolvi que ia começar a beber… e a fumar cigarro… e um pouco depois começar a procurar novas amizades em outras portas de colégio e começar a usar drogas.

Foi meio que pra falar a real uma coisa meio que assim:

“Ah é? Você quer guerra? Então você vai ter guerra. Se eu não te dava motivo pra você destruir o meu círculo social eu agora vou te dar todos os motivos pra você odiar as pessoas com quem eu ando e tudo o que eu faço”.

Tipo isso.

E comecei a me destruir.

No primeiro dia de aula eu cheguei de ressaca, ainda meio bêbada, com vários cortes feitos nos braços, tentei me furar no rosto com agulha de piercing, cheguei toda machucada, com sangue pisado em várias partes do corpo na escola no 1º ano do 2º grau nessa escola que eu estudava em Ipanema.

No intervalo fui fumar um cigarro mentolado no banheiro e o povo todo achou que eu estava fumando maconha no banheiro.

Não demorou muito pra eu virar pra minha mãe e falar “Eu não quero mais estudar”. “Eu não volto mais naquela merda de colégio”.

Eu realmente estava empenhada em me destruir e acabar com minha vida.

Virou uma chavinha, sabe?

E daí pra frente foram anos, pulando de grupo em grupo de punks, reggae, clubbers, o que fosse…. atrás de aceitação, role, companhias, música, baladas, drogas, relacionamentos,…. ceninha…

e muita droga.

De 2001 a 2009.

Até que com 24 anos o meu corpo pifou.

Eu vi que todas as cagadas que eu estava fazendo não estavam me levando a lugar nenhum e que essa vigancinha eterna contra minha mãe só estava me matando.

Que o erro que ela cometeu não ia se apagar, que eu posso não perdoar ela até hoje…. mas e os “amigos”… eram tão amigos assim? Foram tão amigos assim comigo?

Quem ficou do meu lado na época? Quem ficou comigo?

Não lembro…. Me arriscaria em dizer que B., pois ela sempre esteve do meu lado em todas as situações em nossa adolescência.

Mas acho que só.

Ou seja, nada vai recuperar o estrago. E a decisão de me vingar me auto destruindo foi minha. E só eu me prejudiquei dessa forma. Na real, eu prejudiquei toda minha família durante um bom tempo. Infernizei a vida deles durante um bom tempo, até eles “lavarem as mãos”….

E pra quê? A troco de que?

Olha, eu acho que essa história é muito triste e eu não desejo pra ninguém. Mas ela é minha história e se servir de uma leitura pra alguém que estiver passando por isso e tiver como decidir por alguma coisa eu só recomendaria que não se precipitasse em escolher pelo caminho da vingança …. porque esse envenena a alma.

=(

 

5 comentários em “Porque não devemos buscar a vingança.

  • Se a gente passou por isso é porque nós aguentamos carregar esse fardo e renascer. A escolha eu ainda faço todo dia ao perguntar quem eu sou e como posso ser melhor agora. E o passado só serviu para me trazer ao hoje. E hoje dá para olhar tudo de um ponto de vista de fora. Parabéns! Você não está nunca sozinha.

    • Obrigada mesmo pelo comentário de força Tiago, você não imagina como é forte e animador ouvir essas palavras e como elas acalmam meu coração! ❤ Thanks for the support! Um beijo especial pra você! :* Tamo Junto.

  • Caramba… obrigada por compartilhar! Isso pode ajudar muitos jovens que eu vejo se estragando todos os dias. É uma pena que só conseguimos ver que não vale a pena quando ficamos mais velhos. Adolescentes podem ser crueis

    • Pois é… acho que quando somos adolescentes não temos dimensão das coisas que fazemos pra nós mesmos e para os outros. Estamos em um eterno conflito de adquirir individualidade e pertencer á um grupo ao mesmo tempo … acho que a única coisa que não desejo para adolescente nenhum é que eles destruam as suas vidas usando drogas. Porque esse pode ser um caminho sem volta. Leva á destruição e á perda de tempo, ao atraso de vida. Sei bem disso e vivo na pele as consequências de minhas escolhas. 😦

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